Qual a relação entre Processamento Auditivo e Aprendizagem?

Qual a relação entre Processamento Auditivo e Aprendizagem?

Perante uma criança sem perda auditiva, pode o Processamento Auditivo interferir no desenvolvimento da sua aprendizagem e comunicação? Haverá relação entre Processamento Auditivo e Aprendizagem?

Neste artigo iremos dar resposta a esta questão, de salientar que este é um tema algo desconhecido em Portugal, mas de elevada importância quando falamos em aprendizagem e comunicação.

O processamento auditivo é a capacidade de organizar e compreender os estímulos sonoros que recebemos. Este desenvolve-se a partir das experimentações sonoras pelas quais a criança passa, sobretudo, nos dois primeiros anos de vida.

“Dos cinco sentidos do ser humano, a audição talvez seja aquele que está mais envolvido no desenvolvimento linguístico e cognitivo”

cristiane nunes

É através do que ouvimos que desenvolvemos a comunicação. É esta habilidade que nos vai permitir estabelecer uma relação de diálogo com o outro e consequentemente evoluir em termos cognitivos.

Estudos pioneiros, realizados nos Estados Unidos, associam cada vez mais o processamento da informação (processamento auditivo) a outras competências. Em conjunto potenciam um adequado desenvolvimento da criança.

No processo de aprendizagem o processamento auditivo tem um papel importante. É provável que, em crianças com dificuldades de aprendizagem, se esteja perante uma Perturbação no Processamento Auditivo (PPA), salvo outras exceções.

Que competências auditivas se encontram alteradas numa PPA?

A ASHA – American Speech-Language-Hearing Association aponta as seguintes:

  • Localização sonora e lateralização;
  • Discriminação auditiva;
  • Reconhecimento dos padrões auditivos;
  • Perceção dos aspetos temporais;
  • Resolução/mascaramento/integração/ordenação temporal;
  • Desempenho diante da degradação de sinais acústicos;
  • Perceção dos sons.

De salientar que, geralmente as crianças com PPA apresentam limiares normais de níveis de audição e ausência de alterações cognitivas, por outras palavras, estas crianças ouvem bem e compreendem bem, apenas têm dificuldade em processar o que ouvem.

Quais os défices, sintomas e comportamentos frequentemente observados na PPA?

  • Dificuldade na discriminação dos sons da fala, bem como, identificação e memória;
  • Problemas de leitura e escrita;
  • Dificuldades na manipulação e memorização de fonemas;
  • Baixa capacidade para perceber a fala na presença de ruído;
  • Fraca memória auditiva – dificuldade em seguir instruções dadas oralmente;
  • Desempenho baixo em testes educacionais, psicológicos ou linguísticos que envolvam a audição;
  • Inconsistência nas respostas auditivas, ainda mais se estiver em grupo;
  • Perturbações na linguagem expressiva e recetiva;
  • Dificuldade na compreensão de fala rápida ou com sotaque pouco familiar;
  • Défice no reconhecimento dos padrões rítmicos (música);
  • Troca de sons na fala.

As causas da PPA são ainda desconhecidas, no entanto, intercorrências no decorrer da gestação, durante ou após o nascimento, otites de repetição e problemas na neuromaturação do sistema auditivo são apontados como possíveis origens.

Podemos também associar a PPA a outras disfunções, como por exemplo: dificuldades de aprendizagem, atraso na aquisição da linguagem, afasia do desenvolvimento, dislexia do desenvolvimento, défice de atenção e hiperatividade, doença genética, traumatismo craniano, entre outras.

Qual a idade em que a PPA é observável?

Os sintomas tornam-se evidentes na idade pré-escolar – no início da alfabetização – onde as competências de consciência fonológicas são necessárias. Além da memória auditiva e discriminação dos sons da fala.

Sobretudo em meio escolar, as crianças com PPA são consideradas (erradamente) como desinteressadas, distraídas ou desatentas, quando, a sua dificuldade principal é na compreensão do que é dito pelo professor. Todavia, mesmo apresentando uma audição normal ou dentro dos padrões de normalidade, têm dificuldade em escrever, interpretar e compreender os enunciados.  

Concluindo, a avaliação do Processamento Auditivo assume um papel importante na análise de crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem ou perturbações da comunicação. De salientar que, a avaliação das respostas auditivas fornece-nos dados importantes para que seja desenhado o melhor plano terapêutico, o que resultará numa resposta mais adequada.

Em suma, haverá relação entre Processamento Auditivo e aprendizagem? A resposta é sim e a deteção precoce de défices nas competências auditivas de crianças em idade pré-escolar ou nos primeiros anos escolares, contribui para uma melhor intervenção! O Terapeuta da Fala, com especialização em intervenção no Processamento Auditivo, é o profissional a quem deve recorrer.