O que fazer quando existem dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita

O que fazer quando existem dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita

A leitura e a escrita são dois processos bastante complexos, cuja aprendizagem se inicia, normalmente, aquando da entrada para a escola. No entanto, esta aprendizagem está dependente da maturação e ou integração de determinados factores que fazem parte do processo. Nomeadamente a motricidade, a lateralidade, o esquema corporal e a coordenação visuomotora.

A leitura, é a descodificação de um código de símbolos gráficos (letras ou grafemas) que associado a um repertório de conceitos adquiridos até então. Por outras palavras, vai permite a interpretação da mensagem escrita. A capacidade perceptiva vai permitir reconhecer as palavras escritas e, por outro lado a capacidade de compreensão permite obter o sentido do que se lê.

A escrita, por seu lado é a representação gráfica da linguagem oral e está intimamente ligada ao processo evolutivo da mesma. É uma actividade que depende do movimento coordenado entre os olhos e a mão. Vai implicar um conjunto de habilidades motoras, principalmente de motricidade fina, que permitam segurar o instrumento de escrita e o movimentar.

As dificuldades de leitura e escrita começam a ser mais perceptíveis por volta dos 6 anos de idade, altura em que a criança entra para a escola e começa a ter contacto real com a leitura e a escrita.

Quando o processo de aprendizagem da leitura e da escrita não acompanha a idade cronológica ou o ano escolar, podemos estar perante uma perturbação especifica da leitura e da escrita. Mas que não sendo correctamente diagnosticada e intervencionada, pode permanecer na idade adulta. A Dislexia, a Disgrafia, a Disortografia e a Discalculia podem estar presentes concomitantemente ou aparecer na sua forma isolada.

 

Dislexia

A Dislexia constitui uma dificuldade inesperada na leitura, sendo definida como uma dificuldade específica da aprendizagem, caracterizada por dificuldades na precisão e/ou fluência na leitura de palavras.

Está intimamente ligada às alterações da consciência fonológica, ou seja, alterações na capacidade de perceber de um modo consciente que os sons associados às letras são os mesmos das palavras escritas.

Características comuns:
  • Início tardio da fala e distorções persistentes na articulação de certos sons;
  • Dificuldade em pronunciar palavras novas necessitando de maior esforço para as aprender;
  • Discurso oral ou escrito entrecortado por pausas longas que expressam uma dificuldade em encontrar a palavra certa;
  • Erros na codificação da posição das letras dentro de uma palavra, o que provoca a sua dispersão dentro dessa palavra;
  • Perturbação na ligação das letras que formam uma palavra, resultando na migração destas entre palavras;
  • Negligência de um lado das palavras que pode resultar não só em omissões, mas também substituições ou adição de letras num dos lados da palavra;
  • Evitam ou fazem substituições impróprias de certas palavras;
  • Menor capacidade na retenção de informação verbal na memória a curto prazo.

Disgrafia

A Disgrafia é uma alteração funcional da escrita que se manifesta por alterações permanentes na forma e/ou significado da mesma, o que quer dizr que vai afectar a qualidade de escrita.

Características comuns:
  • Letras excessivamente grandes ou por outro lado, demasiado pequenas;
  • Letras difíceis de ler;
  • Traço muito carregado/grosso ou excessivamente ténue;
  • Traçado irregular;
  • Espaçamento irregular entre as letras ou palavras;
  • Escrita muito rápida ou muito lenta;
  • Escrita desorganizada na folha;
  • Utilização incorrecta do instrumento de escrita.

Disortografia

A Disortografia é a incapacidade de compor um texto escrito. Isto é, há uma dificuldade recorrente em organizar, estruturar e compor um texto escrito.

Erros comuns:
  • Visuoespaciais: Troca do b-d (posição diferente no espaço) e do m-n (letras visualmente semelhantes); escrita de letras ou palavras em espelho; omissão da letra h e confusão entre o ch-x ou o g-j.
  • Visuoanalíticos: Troca de letras sem qualquer motivo aparente. Dificuldade em relacionar aquilo que ouve com aquilo que escreve.
  • Quanto às regras de ortografia: Erros de pontuação – não colocar o m antes do b ou do p, não iniciar os parágrafos ou frases com letra maiúscula, não colocar o hífen na mudança de linha
  • De carácter linguístico-perceptivo: Troca de letras com o ponto de articulação comum ou foneticamente semelhantes (p e b), omissões, adições e inversões de fonemas, grafemas, silabas e palavras.

Discalculia

A Discalculia é uma dificuldade na aprendizagem do cálculo, o que quer dizer que há uma dificuldade em compreender os princípios e processos matemáticos.

Dificuldades comuns:
  • Aprender os números;
  • Troca de números semelhantes graficamente (1-7, 6-9, 13-31);
  • Confusão com os sinais aritméticos (+, -, x, …);
  • Ordenar e classificar itens pela cor, tamanho ou forma;
  • Identificar diferenças entre itens (grande/pequeno, cheio/vazio, maior/menor);
  • Contagem mental e associação do número à respectiva quantidade;
  • Realizar cálculos simples;
  • Aprender as horas, dias da semana, meses e estações do ano;
  • Compreender o valor das moedas (0,20€= 0,10€+0,10€).
Possíveis causas:

Existem fatores específicos que podem estar por trás das diferentes dificuldades especificas da leitura e da escrita, mas outros há que parecem estar presentes em todas elas.

Genéticas – Podemos observar, em alguns estudos efetuados no âmbito destas perturbações uma correlação genética, ou seja, há uma maior probabilidade de prevalência se na família um dos progenitores ou outro familiar também apresente uma destas problemáticas. O recurso à Ressonância Magnética Funcional veio comprovar a existência de uma base neurobiológica destas perturbações.

Psico-motoras – Nas perturbações específicas da linguagem é comum observarmos alterações motoras de base tais como, défice no equilíbrio, diminuição da coordenação dos movimentos globais e finos e consequentemente alterações do planeamento motor.

Perceptivas – Dificuldades na orientação temporoespacial, isto é, capacidade de se organizar no espaço e no tempo , disfunções perceptivas.

, diminuição da memória visual e auditiva.

Imaturidade – Quando os pré-requisitos necessários para a aquisição desta habilidade não estão devidamente maturados e integrados. Como é o caso da lateralidade, da direcionalidade, do esquema corporal e da coordenação visuomotora (capacidade de coordenar o movimento dos olhos com o movimento da mão).

Personalidade – Défices de atenção – capacidade de focalização e sustentação da atenção e falta de motivação para a leitura e escrita. A melhoria destas competências está altamente relacionada com o querer e com a vontade de persistir.

Pedagógicas – Quando o processo de ensino da escrita não foi o adequado, nomeadamente quanto à adaptação de estratégias necessárias para uma boa orientação e qualidade da leitura e da escrita.

Linguísticas – Vocabulário fraco. Dificuldades de articulação de produção de textos.

Influência do meio ambiente – Situações traumáticas intra e extra uterinas podem também estar na base das perturbações específicas da linguagem, bem como, a ausência de um ambiente rico em oportunidades de leitura e escrita.

Como intervir?

O diagnóstico precoce de algum destes sintomas é fundamental para que possam ser tratados ainda na infância, para que desta forma não se mantenham na fase adulta.

O tratamento passa pela intervenção de uma equipa multidisciplinar, numa primeira fase para avaliação dos sintomas, e posterior encaminhamento para a área ou áreas, que dependo da alteração, poderão ser a Terapia da Fala, Terapia Ocupacional e Psicologia.